Pílula contra câncer de pâncreas dobra sobrevida e arranca lágrimas de médicos no maior congresso de oncologia do mundo
Estudo de fase 3 apresentado na ASCO mostrou que o daraxonrasib reduziu o risco de morte em 60% em pacientes metastáticos sem resposta à quimioterapia
Chorar não faz parte da rotina de um congresso de oncologia. Aplausos de pé, tampouco. Mas foi exatamente isso que aconteceu em Chicago, em 1º de junho de 2026, quando os resultados finais do ensaio clínico RASolute 302 foram projetados na tela da sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO) — o evento mais influente da oncologia clínica mundial.
Uma doença que quase não deixa margem
Para compreender o impacto da cena, é preciso dimensionar o adversário. O câncer de pâncreas é silencioso. Não apresenta sintomas iniciais. Quando o diagnóstico chega, cerca de 80% dos casos já se encontram em estágio avançado ou metastático — disseminados para outros órgãos, além do alcance cirúrgico.
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Os números são brutais. Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem o diagnóstico a cada ano; 50 mil morrem. No Brasil, são 13 mil novos diagnósticos anuais, com cerca de 12 mil óbitos. A sobrevida em cinco anos da forma metastática gira em torno de 3% — uma das taxas mais baixas entre todos os tipos de câncer.
No centro dessa resistência ao tratamento está uma proteína chamada RAS. Quando mutada, ela trava na posição “ligado” e passa a ordenar às células que cresçam e invadam tecidos sem parar. Mais de 90% dos tumores pancreáticos carregam essa mutação. Durante décadas, pesquisadores tentaram bloquear o RAS — e falharam. A molécula não oferece uma superfície clara para que um fármaco se fixe, como uma fechadura cujo miolo foi polido até perder os relevos. O RAS ficou conhecido na literatura médica como undruggable (intratável).
O comprimido que venceu o ‘impossível’
O daraxonrasib, desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines, conseguiu chegar onde nenhuma droga havia chegado: bloqueou não apenas uma variante da mutação RAS, mas várias ao mesmo tempo. Em abril de 2026, a companhia já havia divulgado resultados preliminares animadores — um comprimido tomado uma vez ao dia quase dobrara a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático refratário à quimioterapia. Mas dados preliminares, anunciados por uma empresa com interesse financeiro direto, ainda não constituem a última palavra da ciência.
A última palavra é a fase 3. E foi ela que chegou a Chicago.
O desenho mais rigoroso da medicina
O estudo RASolute 302 obedeceu ao padrão mais exigente da pesquisa clínica: um ensaio randomizado de fase 3. Quinhentos pacientes foram divididos por sorteio em dois grupos — nem médicos nem pacientes escolheram quem receberia qual tratamento. Um grupo tomou o comprimido; o outro prosseguiu com a quimioterapia convencional. Esse formato existe para eliminar vieses e assegurar que qualquer diferença observada seja atribuível ao tratamento, não ao acaso. Os resultados foram considerados finais — sem análises pendentes, sem dados faltando.
Números que mudaram o cenário
- No subgrupo com a mutação RAS G12 — a mais frequente no câncer de pâncreas —, a sobrevida mediana alcançou 13,2 meses com o comprimido, contra 6,6 meses com a quimioterapia. Sobrevida mediana significa que metade dos pacientes viveu mais do que isso — e metade, menos.
- O risco de morte caiu 60%.
- O tempo até a doença voltar a progredir também dobrou: 7,3 meses contra 3,5 meses com a quimioterapia.
- Os resultados se mantiveram praticamente idênticos ao se analisar o grupo total de pacientes, incluindo aqueles sem mutação RAS identificada.
- Mais de 31% dos pacientes que tomaram o comprimido apresentaram redução mensurável do tumor, contra 11,2% no grupo de quimioterapia.
Um dado em particular chamou atenção dos pesquisadores: apenas 1,2% dos pacientes que usaram daraxonrasib precisaram interromper o tratamento por efeitos colaterais. No grupo de quimioterapia, essa taxa foi de 11,2%.
Para os pacientes do estudo — todos metastáticos e sem opções após a quimioterapia —, a diferença representou 6,5 meses a mais de vida, em mediana.
A conclusão dos pesquisadores, publicada no Journal of Clinical Oncology, foi direta: o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha.
‘O aplauso em pé foi merecido’
Stephen Stefani, oncologista da Americas Health Foundation, acompanhou a apresentação presencialmente em Chicago. Ao g1, ele contextualizou a reação do auditório:
“Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença”, diz ele. “Eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica —e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido.”
Stefani destacou o peso estatístico dos dados:
“Os 13 meses são uma mediana — há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor.”
Para o oncologista, o significado do resultado vai além do número clínico:
“O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada —a de oferecer sobrevida real a pacientes para os quais, até agora, pouco havia a fazer.”
Caminho regulatório: FDA prioriza, Brasil ainda distante
O próximo passo é a aprovação regulatória. A Revolution Medicines confirmou que submeterá os dados à Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) como parte de um pedido formal. O daraxonrasib já havia recebido o status de Breakthrough Therapy — classificação reservada a medicamentos que demonstram vantagem substancial sobre os tratamentos existentes e que garante análise prioritária. Além disso, obteve designação de medicamento órfão e foi selecionado para o programa National Priority Voucher, que acelera ainda mais a revisão. O acesso compassional, para casos selecionados sem outras opções, já está autorizado nos Estados Unidos.
A realidade brasileira
No Brasil, o horizonte é consideravelmente mais distante. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisaria conduzir seu próprio processo de aprovação. No sistema privado, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) teria ainda que publicar uma diretriz de utilização técnica para obrigar os planos de saúde a cobrir o medicamento.
No sistema público, o obstáculo é financeiro desde a partida: o valor pago atualmente para tratar um paciente com câncer de pâncreas é de cerca de R$ 1.986, enquanto drogas oncológicas novas custam em média dez mil dólares por mês no mercado americano. Não há previsão concreta de quando — nem se — esse acesso chegará ao Brasil no curto prazo.
“O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada: a de oferecer ganho real em sobrevida a pacientes que, até agora, tinham poucas alternativas”, conclui Stefani.
Os números são brutais. Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem o diagnóstico a cada ano; 50 mil morrem. No Brasil, são 13 mil novos diagnósticos anuais, com cerca de 12 mil óbitos. A sobrevida em cinco anos da forma metastática gira em torno de 3% — uma das taxas mais baixas entre todos os tipos de câncer.
No centro dessa resistência ao tratamento está uma proteína chamada RAS. Quando mutada, ela trava na posição “ligado” e passa a ordenar às células que cresçam e invadam tecidos sem parar. Mais de 90% dos tumores pancreáticos carregam essa mutação. Durante décadas, pesquisadores tentaram bloquear o RAS — e falharam. A molécula não oferece uma superfície clara para que um fármaco se fixe, como uma fechadura cujo miolo foi polido até perder os relevos. O RAS ficou conhecido na literatura médica como undruggable (intratável).
O comprimido que venceu o ‘impossível’
O daraxonrasib, desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines, conseguiu chegar onde nenhuma droga havia chegado: bloqueou não apenas uma variante da mutação RAS, mas várias ao mesmo tempo. Em abril de 2026, a companhia já havia divulgado resultados preliminares animadores — um comprimido tomado uma vez ao dia quase dobrara a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático refratário à quimioterapia. Mas dados preliminares, anunciados por uma empresa com interesse financeiro direto, ainda não constituem a última palavra da ciência.
A última palavra é a fase 3. E foi ela que chegou a Chicago.
O desenho mais rigoroso da medicina
O estudo RASolute 302 obedeceu ao padrão mais exigente da pesquisa clínica: um ensaio randomizado de fase 3. Quinhentos pacientes foram divididos por sorteio em dois grupos — nem médicos nem pacientes escolheram quem receberia qual tratamento. Um grupo tomou o comprimido; o outro prosseguiu com a quimioterapia convencional. Esse formato existe para eliminar vieses e assegurar que qualquer diferença observada seja atribuível ao tratamento, não ao acaso. Os resultados foram considerados finais — sem análises pendentes, sem dados faltando.
Números que mudaram o cenário
- No subgrupo com a mutação RAS G12 — a mais frequente no câncer de pâncreas —, a sobrevida mediana alcançou 13,2 meses com o comprimido, contra 6,6 meses com a quimioterapia. Sobrevida mediana significa que metade dos pacientes viveu mais do que isso — e metade, menos.
- O risco de morte caiu 60%.
- O tempo até a doença voltar a progredir também dobrou: 7,3 meses contra 3,5 meses com a quimioterapia.
- Os resultados se mantiveram praticamente idênticos ao se analisar o grupo total de pacientes, incluindo aqueles sem mutação RAS identificada.
- Mais de 31% dos pacientes que tomaram o comprimido apresentaram redução mensurável do tumor, contra 11,2% no grupo de quimioterapia.
Um dado em particular chamou atenção dos pesquisadores: apenas 1,2% dos pacientes que usaram daraxonrasib precisaram interromper o tratamento por efeitos colaterais. No grupo de quimioterapia, essa taxa foi de 11,2%.
Para os pacientes do estudo — todos metastáticos e sem opções após a quimioterapia —, a diferença representou 6,5 meses a mais de vida, em mediana.
A conclusão dos pesquisadores, publicada no Journal of Clinical Oncology, foi direta: o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha.


