Educação para o futuro pauta encontro do Lide sobre transformações no trabalho

Educação para o futuro pauta encontro do Lide sobre transformações no trabalho
Em Florianópolis, reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, analisa mudanças no mundo do trabalho, novas gerações e o papel das universidades na formação de talentos

Cerca de 60% dos empregadores apontam o déficit de habilidades como a principal barreira para a transformação dos negócios. Ao mesmo tempo, 39% das competências consideradas essenciais no mundo do trabalho devem mudar até 2030. Os dados dimensionam o desafio colocado diante da educação em um cenário marcado por mudanças tecnológicas aceleradas.

O diagnóstico, apresentado em estudos do Fórum Econômico Mundial, foi destacado pela reitora em exercício da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Gisele Silveira Coelho Lopes, durante palestra no encontro “Cidadania Empresarial e Educação para o Futuro”, promovido pelo LIDE, em Florianópolis.

Ao abordar o tema “Educação para o futuro — Educar pessoas para um mundo em transformação”, Gisele sustentou que a velocidade das mudanças exige uma revisão profunda do modelo educacional e das relações de trabalho. “O mundo mudou mais nos últimos 20 anos do que antes. A pergunta que se impõe é se a educação e as relações laborais acompanharam esse ritmo”, ressaltou.

Outro indicador citado pela reitora em exercício evidencia o distanciamento do Brasil em relação aos países com maior qualificação educacional. Entre jovens com idades entre 25 e 34 anos, apenas 24% possuem ensino superior completo no país. A média dos integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) chega a 49%, enquanto na China o índice varia entre 50% e 54%, conforme o relatório Education at a Glance 2025. “Estes dados dialogam diretamente com o desenvolvimento econômico e com os indicadores de competitividade das regiões”, avaliou.

Educação e desenvolvimento regional

Estudos apontam que a presença de instituições de ensino superior produz efeitos que ultrapassam o ambiente acadêmico. O fenômeno, descrito como “transbordamento”, associa universidades ao aumento do Valor Adicionado Fiscal (VAF) e ao fortalecimento da economia local.

Esse papel foi destacado por Gisele ao apresentar o modelo das Universidades Comunitárias catarinenses, construído a partir da mobilização das próprias comunidades. “Criada há 58 anos em Criciúma, a Unesc reúne hoje cerca de 19 mil estudantes em um único campus. A Instituição integra o sistema Acafe, que articula essas instituições formadas a partir de fundações educacionais municipais. São entidades sem fins lucrativos, sem donos. Todo resultado financeiro retorna para bolsas de estudo, pesquisa, extensão e inovação”, explicou.

Na avaliação da gestora, esse modelo educacional contribuiu para estruturar o padrão de desenvolvimento observado em Santa Catarina, ao ampliar a capilaridade do ensino superior e formar profissionais para diferentes setores da economia.

Contudo, indicadores recentes também evidenciam sinais de alerta. “O Censo da Educação de 2025 registrou evasão de aproximadamente um milhão de estudantes no ensino médio, fenômeno que tende a impactar a qualificação profissional e a empregabilidade no país”, falou.

Mundo do trabalho em transformação

A análise apresentada no encontro também abordou as transformações estruturais do mercado global. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, indica também que 22% dos empregos atuais serão criados ou extintos entre 2025 e 2030 em um movimento decorrente de fatores como avanço tecnológico, transição verde e mudanças demográficas.

“Estamos educando pessoas para um mundo que ainda não existe. Nesse contexto, a inteligência artificial e a automação redesenham profissões, automatizam tarefas rotineiras e inauguram novas demandas de qualificação. O desafio não reside em competir com as máquinas, mas em desenvolver competências que permitam trabalhar com elas”, observou a reitora em exercício.

Entre as habilidades consideradas estratégicas para o futuro estão pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, inteligência emocional e capacidade de aprendizagem contínua. “O futuro pertence a quem sabe aprender”, sintetizou Gisele.

Novas gerações e novos modos de aprender

A geração que hoje ocupa escolas e universidades é formada por jovens nascidos entre 1997 e 2012, a chamada Geração Z, que cresceu em meio a transformações profundas. Pandemia de Covid-19, mudanças climáticas, crises econômicas, conflitos geopolíticos e hiperconectividade digital compõem o cenário que molda a percepção desses jovens sobre trabalho, educação e sociedade.

“Estudos indicam que 98% deles permanecem entre oito e dez horas diárias diante de telas. O comportamento influencia diretamente o modo como aprendem e se relacionam com instituições. Além disso, 72% preferem conteúdos curtos e 59% aprendem melhor quando confrontados com problemas reais”, enfatizou Gisele.

“No ambiente de trabalho, a geração valoriza propósito, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, diversidade, autonomia e impacto social das organizações. Além disso, 84% desses profissionais preferem conversas regulares edificantes em vez de avaliações formais, enquanto 69% buscam feedback focado em pontos fortes”, acrescentou.

Universidade como centro de conhecimento

Diante desse cenário, a gestora destacou o papel estratégico das universidades na formação de talentos e na produção de conhecimento aplicado. Segundo ela, as instituições de ensino superior assumem múltiplas funções como centros de ciência, inovação, formação profissional e desenvolvimento regional.

Entre as iniciativas mencionadas está o Challenge de Negócios, programa que propõe desafios empresariais para estudantes e promove cocriação entre academia e setor produtivo. A metodologia envolve imersão de 50 horas, desenvolvimento de soluções e reconhecimento das melhores propostas.

“O futuro da educação não será determinado apenas pela tecnologia, mas pela capacidade humana de interpretar informação, produzir conhecimento e construir soluções coletivas. Não é a tecnologia que transforma o mundo. São as pessoas que sabem utilizá-la com inteligência, ética e propósito”, concluiu.

Texto e foto: Marciano Bortolin/Agecom/Unesc